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A ação de Chiara Lubich, com mais de vinte pronunciamentos públicos nos quais apresenta o Movimento Político pela Unidade, sua fisionomia e proposta cultural, deixou bem claro o ponto de partida, o eixo do trabalho do MPPU.
Esse patrimônio de análises e perspectivas políticas nos estimula à continuidade de ação e reflexão. Ela afirmou ser essencial nossa inserção na complexidade da vida política e a relação “carismática” que se cria entre pensamento e ação está abrindo caminho para a penetração da proposta da Fraternidade Universal.
Chiara viu o MPPU como um “laboratório internacional de trabalho político entre cidadãos, funcionários, estudiosos, políticos de várias inspirações e partidos, que colocam a fraternidade como base da própria vida”.
Três elementos emergem em seu pensamento: um claro perfil operacional, a pluralidade de atores protagonistas e a inspiração geradora da fraternidade universal.
Vamos nos limitar, hoje, ao aspecto da subjetividade plural, ou seja, o igual protagonismo de todos na dinâmica democrática a começar dos cidadãos, que está se revelando um motor particularmente eficaz de renovação política.
Se considerarmos de modo superficial o panorama das atuais relações políticas em nível local, nacional e internacional, pode parecer uma espécie de provocação falar de política como espaço de fraternidade. Os confrontos, as situações de conflito e de ódio que caracterizam o atual momento histórico sugerem antes uma atitude de “desilusão”, muito distante da idéia de “espaço de fraternidade”.
No entanto, Chiara mostrou grande determinação ao lançar a proposta da fraternidade, justamente, à política, apresentando-a como categoria, isto é, ponto essencial, princípio configurante das idéias e dos fatos políticos em nova perspectiva, e, mais ainda, como “paradigma global de desenvolvimento político”. A fraternidade universal introduz um verdadeiro coeficiente de inovação, tanto do ponto de vista dos conteúdos quanto do método.
Conteúdos da Fraternidade
Apresenta-se como categoria política quanto aos conteúdos por ser capaz de explicar algumas grandes ideias políticas que a história consagrou, oferecendo, com a humildade e a força da experiência, uma nova contribuição que procura valorizar as sementes de verdade do percurso anterior. Essa atitude permite realizar uma nova síntese de visões contrárias, assim como buscar a superação de algumas profundas ambiguidades. Constatou-se isso em relação à liberdade e à igualdade, em nome das quais foram construídos os principais projetos políticos da modernidade e a história demonstrou que, se procuradas de modo absoluto, chegaram a gerar verdadeiros “monstros”.
O mesmo pode-se dizer da ideia de interdependência. Reconhecer a interdependência que liga povos e culturas é o primeiro passo, mas é ainda insuficiente, a idéia de “interdependência fraterna” inclui a proposta de conferir conteúdos bem definidos a essa relação, tais como: a acolhida, o diálogo, o reconhecimento recíproco, a partilha de recursos e a reconciliação.
Método da fraternidade
Quanto ao método, a opção da fraternidade ilumina as diversas tradições do pensamento político a partir de dentro, abrindo a possibilidade concreta de conjugar as legítimas distinções e a unidade de objetivos e compromisso. É óbvio que isso significa buscar uma comunhão mais profunda e não apenas favorecer a troca de idéias.
Diante da crescente rigidez do debate político, não se deve subestimar a existência de um “conflito de visões”, com raízes em posições políticas radicalmente alternativas, o que mostra ser inatingível o “consenso por acordo”. A cultura política do MPPU deseja estimular uma nova dinâmica e compreensão entre as partes em conflito, sugerindo o caminho do reconhecimento recíproco, que pode contribuir para que não se desenvolva um “conflito entre pessoas”.
O MPPU tenciona desenvolver sua ação no âmbito da transformação do conflito em diálogo e, para isso, segue um estilo peculiar e insubstituível, oferecendo um espaço no qual é possível buscar juntos a verdade, mesmo sabendo ser um desafio o esforço de tornar funcionais, mas não complementares, as visões divergentes, principalmente na fase de atuação das políticas.
Essa é a experiência de um grupo de parlamentares italianos, que criaram um laboratório de diálogo sobre as reformas institucionais. O que eles solicitam do Movimento Político pela Unidade é um espaço de discussão deliberativa, serena e construtiva, onde possam encontrar-se para buscar a superação do que os divide, no momento. Experiência semelhante acontece no Brasil com a Proposta de Emenda Constitucional – PEC 281-2008 - sobre o Orçamento Participativo, Inclusivo e Impositivo. A pluralidade vivida em harmonia faz emergir a ação de uma nova inteligência e de uma criatividade “profética”.
A fraternidade, princípio educativo
A fraternidade é também um princípio educativo, forma à “política de comunhão”. O espaço comunitário para esse trabalho de elaboração cultural é a rede internacional de escolas de formação política para jovens (no Brasil, Escola Civitas), é a categoria unificante desse projeto didático, perpassando transversalmente as várias disciplinas (organização internacional, unidade nacional, qualidade da democracia, participação, comunicação política, resolução de conflitos, cidades e governo, biopolítica, paz e desarmamento, meio ambiente, multiculturalismo, conflito entre gerações. Já estão sendo recolhidos os primeiros produtos culturais, assim como os resultados dos projetos elaborados pelos jovens nessas escolas.
Sentido atual da política
O atual cenário global com seus aspectos críticos dramáticos revela um profundo déficit de política, pode-se dizer, até mesmo, a sua ausência.
Chiara Lubich fala da política como “o amor dos amores”, uma função insubstituível, uma atividade elevada e profundamente humana, cuja natureza específica é o amor social, um serviço a todos os outros aspectos da vida. Seu pensamento ilumina os políticos a respeito de sua vocação, restituindo-lhes o horizonte luminoso e pleno de sentido que os atraiu, quando optaram pela política. É justamente quando uma sociedade, um sistema econômico ou uma cultura parecem ter perdido seus elementos de coesão e o sentido do interesse comum, que a política pode e deve desenvolver sua indispensável missão: trabalhar com mais determinação para levar às diversas mesas reguladoras aqueles que representam os diferentes interesses legítimos, exercendo sua função conciliadora e harmonizadora.
Afirmar o papel da política significa defender o horizonte do bem comum.
Podemos dizer que a fraternidade vem sanar uma visão que reduz a política somente aos aspectos administrativos e tecnocráticos, conferindo-lhe a força para aglutinar as instâncias do sentido comunitário, que emergem do seio da sociedade. A fraternidade desnuda as raízes da crise e tem como meta a reconstrução paciente, mas tenaz, do tecido social desagregado.
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