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segunda, 21 de maio de 2012
Sábado, 16 de Julho de 2011
Craqueiras e craqueiros Imprimir E-mail
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Escrito por Drauzio Varella   
A contragosto, sou daqueles a favor da internação compulsória dos dependentes de crack. Peço a você, leitor apressado, que me deixe explicar, antes de me xingar de fascista, de me acusar de defensor dos hospícios medievais ou de se referir à minha progenitora sem o devido respeito.
 
A epidemia de crack partiu dos grandes centros urbanos e chegou às cidades pequenas; difícil encontrar um lugarejo livre dessa praga. Embora todos concordem que é preciso combatê-la, até aqui fomos incapazes de elaborar uma estratégia nacional destinada a recuperar os usuários para reintegrá-los à sociedade.
 
De acordo com a legislação atual, o dependente só pode ser internado por iniciativa própria. Tudo bem, parece democrático respeitar a vontade do cidadão que prefere viver na rua do que ser levado para onde não deseja ir. No caso de quem fuma crack, no entanto, o que parece certo talvez não o seja.
 
No crack, como em outras drogas inaladas, a absorção no interior dos alvéolos pulmonares é muito rápida: do cachimbo ao cérebro a cocaína tragada leva de seis a dez segundos. Essa ação quase instantânea provoca uma onda de prazer avassalador, mas de curta duração, combinação de características que aprisiona o usuário nas garras do traficante.
 
Como a repetição do uso de qualquer droga psicoativa induz tolerância, o barato se torna cada vez menos intenso e mais fugaz. Paradoxalmente, entretanto, os circuitos cerebrais que nos incitam a buscar as sensações agradáveis que o corpo já experimentou permanecem ativados, instigando o usuário a fumar a pedra seguinte, mesmo que a recompensa seja ínfima; mesmo que desperte a paranoia persecutória de imaginar que os inimigos entrarão por baixo da porta.
 
A simples visão da droga enlouquece o dependente: o coração dispara, as mãos congelam, os intestinos se contorcem em cólicas e a ansiedade toma o corpo todo; podem surgir náuseas, vômitos e diarreia.
 
Quebrar essa sequência perversa de eventos neuroquímicos não é tão difícil: basta manter o usuário longe da droga, dos locais em que ele a consumia e do contato com pessoas sob o efeito dela. A cocaína não tem o poder de adição que muitos supõem, não é como o cigarro cuja abstinência leva o fumante ao desespero esteja onde estiver.
 
Vale a pena chegar perto de uma cracolândia para entender como é primária a ideia de que o craqueiro pode decidir em sã consciência o melhor caminho para a sua vida. Com o crack ao alcance da mão, ele é um farrapo automatizado sem outro desejo senão o de conseguir mais uma pedra.
 
Veja a hipocrisia: não podemos interná-lo contra a vontade, mas devemos mandá-lo para a cadeia assim que ele roubar o primeiro transeunte. A facção que domina a maioria dos presídios de São Paulo proíbe o uso de crack: prejudica os negócios. O preso que for surpreendido fumando apanha de pau; aquele que traficar morre. Com leis tão persuasivas, o crack foi banido: craqueiras e craqueiros presos que se curem da dependência por conta própria.
 
Não seria mais sensato construirmos clínicas pelo país inteiro com pessoal treinado para lidar com dependentes? Não sairia mais em conta do que arcar com os custos materiais e sociais da epidemia?
 
É claro que não sou ingênuo a ponto de acreditar que, ao sair desses centros de tratamento, o ex-usuário se tornaria cidadão exemplar; a doença é recidivante. Mas pelo menos ele teria uma chance. E se continuasse na cracolândia? E, se ao receber alta contasse com apoio psicológico e oferta de um trabalho decente, desde que se mantivesse de cara limpa documentada por exames periódicos rigorosos, não aumentaria a probabilidade de permanecer em abstinência?
 
Países, como a Suíça, que permitiam o uso livre de drogas em espaços públicos, abandonaram a prática ao perceber que a mortalidade aumenta. Nós convivemos com cracolândias a céu aberto sem poder internar seus habitantes para tratá-los, mas exigimos que a polícia os prenda quando nos incomodam. Existe estratégia mais estúpida?
 
Faço uma pergunta a você, leitor, que discordou de tudo o que acabo de dizer: se fosse seu filho, você o deixaria de cobertorzinho nas costas dormindo na sarjeta?
 
 
Drauzio Varella é médico cancerologista, formado pela USP.

 
 

Comentários  

 
0 #4 Leonísia 23-07-2011 12:39
Concordo plenamente, pois convivo com o problema, e nos dar uma sensação de fraqueza ,insegurança,im potencia, o mais dificil é que não temos a quem pedir socorro, gastamos o que não temos e ainda temos nossa vida invadida, pois somos de familia muito honesta e hoje temos uma pessoa que levou varios objeto de nossa casa para entreguar os traficantes em troca de droga, e ai quem esta cuidando do problema ninguem.A droga hoje invadiu até as cidades pequenas, não sei , mas acho que deixaram chegar ao ponto que é dificil de contralar, porque se não conseguem controlar as cidades pequenas, como é que vão controlar as grandes cidades, a cada dia estamos perdendo um grande numero de jovens e eu sinceramente fico muito triste, não sei talvez a maneira como se educa hoje tenha contribuído, me lembro que fomos criados com limites e todos somos cidadões de bem,outro agravante é a corrupção nos envergonha e nos deixa triste pois como vou ser respeitada se não me respeito,como dizer para nossos filhos o que é correto se hoje a midia mostra toda hora as pessoa a quem damos um voto de confiança nos envergonha
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0 #3 crystian 21-07-2011 18:26
concordo em genero e numero com vc Drauzio.porquer quanto sao filhos dos nossos gorvenantes quer se metem com drogas elas dao logo um jeito de internar.Porem quando é um filho de um pobre eles dizem quer nao tem jeito.
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0 #2 Yusef 18-07-2011 20:28
...a droga é uma questão de saúde pública e não de polícia. Portanto, Dr. Druzio Varella o senhor está de parabéns. Enquanto não houver vontade política e um projeto de governo para essa área, dificilmente teremos a solução para os drogados, para suas famílias e para a nação.
Abraços.
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0 #1 regiane 18-07-2011 19:45
Concordo totalmente com a sua colocação. Sei, por experiência dentro de minha casa, convivendo com um irmão esquizofrênico e usuário de drogas, que não se pode exigir uma internação por vontade própria de uma pessoa nesse estado. A internação forçada, nesses casos, é uma prova de amor. A única dúvida que tenho é aonde interná-los. Atualmente, gastamos, eu e minha família mais de R$ 2000,00 por mês com meu irmão. O fechamento dos manicômios, justo, deixou os doentes nas ruas, pois, pelo que sei, não deixou alternativa àqueles que não têm como pagar uma clínica particular.
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